sábado, 17 de abril de 2010

All tomorrow's posts


Time to go. Foi muito bom ter um canto para alguns exercícios práticos e nada práticos de escrita, ainda que de parca frequência, e fazer dessa caixinha de badulaques o lugar para onde sempre vou poder olhar para lembrar de vários momentos, memoráveis ou pra se esquecer, de coisas registradas e deixadas por dizer nessa estrada longa e cheia de altos e baixos - e muitas paisagens insólitas e curiosas. O estado insone (ou simplesmente de inércia mental de uma cabeça que trabalha mais horas que o recomendável e nem sempre consegue parar quando se quer ou se precisa) que deu ideia a esse espaço afinal já não serve mais de motto, inspiração ou identidade para muito dos escritos esparsos que jogo aqui. Eu, eles e este blog ficamos alienados uns dos outros, no sentido marxista da coisa. Em outras palavras: bateu uma vontade de mudar de ares e de lugar, ainda que nessa vasta terra de ninguém do mundo virtual, porque não mais me reconheço totalmente nesse espaço. É o estilo de escrita sem sentido ou repetitivo? São os sucessivos ataques de falta de inspiração? Os recentes spams que me obrigaram a moderar comentários? Falta de assunto ou de tempo decente pra escrever? Não sei ao certo. Só sei que percebi que não existe ócio criativo sem ócio nem criatividade. Acho que me falta recuperar uma boa dose deles, juntar duas medidas de uma e uma medida do outro, e colocar as mãos à obra de novo.

É certo que não vou conseguir ou querer parar de escrever. Em momento algum. A prática dá o tom, lima e aprimora habilidades, aguça o olhar e serve de alimento à reflexão. Por enquanto, parte dela vai ficar contida aqui até que outro espaço, mais intimista e mais pessoal, surja. É só uma questão de tempo. E fica a fala do dia, do mês e do ano, até que outra surja no lugar dessa.

Au revoir.

Contextualizando

Hm. De novo, aquele clichê que não quer calar e nem se importa de sair em horas inoportunas: "estado de insônia mais uma vez". Prenúncio de mais um ensaiozinho inútil - mas não completamente sem porquê, ao menos por ora.

O porquê propriamente dito fica por conta dessa letra aí de cima, que se encaixa não menos que perfeitamente bem à minha cotidianidade fora do contexto. E faz pensar numas coisas esparsas que não faz muito bem jogar fora sem analisar um pouco primeiro. Alguns desses pequenos bits merecem até ser ruminados e regurgitados com calma, para que então possam ser - lenta e finalmente - digeridos. Melhor ainda se são frutos da criatividade, "mesmo" que alheia, e servem como aqueles post-its fluorescentes que se espalha pela mesa de trabalho e pela tela do computador. E no caso se tratam de post-its da conturbada vida cotidiana, com tantos sentimentos e palavras importantes e inadiáveis esquecidas em alguma gaveta da memória. Um desses tais bits tem inexoravelmente a ver com as "so many words I can't afford to give away". Ele atende por "Why not giving them away?" e fomos há pouquíssimo apresentados. Tem uma presença imponente que provoca timidez, mas se entrosa fácil sempre que lhe dão espaço e oportunidade. A impressão que eu tenho é a de que a curiosidade foi mútua. Vou saber quando estiver alive in between the lines.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Um chá frio


Não é coincidência, apenas saudade. Ou aquela velha opinião pré-formada (pré-conceito?) sobre o fato de que o ser humano pode nunca estar satisfeito no lugar onde está (ao menos na maior parte do tempo). O fato é que ultimamente ando sentindo umas saudades de Portugal, com a consciência de que nem estive tanto tempo assim, tão longe, a ponto de já querer ver essa foto aí de cima com as minhas retinas outra vez. Mas a vontade já bate.

Admito que ter assistido o Terra Estrangeira (do Walter Salles) outra vez, depois de tanto tempo decorrido desde a primeira vez que o vi, ajudou um bocado. Desde muito tempo eu já achava aquele filme lindo, cheio de sentido, recheado de alma e de poesia até o alto do gargalo, transbordando um certo senso confuso de identidade do qual eu apenas tinha uma ideia vaga. Mas que vim a compreender alguns anos depois. E confesso que assistir esse filme outra vez, depois de tanto tempo, tantos lugares, tantas pessoas e tantos momentos, teve um sentido completamente diferente, muito mais inteiro e muito mais meu. Mas que certamente mereceria mais espaço para ser discutido e escrito. Eu ainda coleciono as palavras que chegam lentas, uma a uma, para colocar em algum lugar desse espaço e falar sobre isso. Vou esperar.

E talvez, ler este post do Armando Antenore sobre a Saga Lusa da Adriana Calcanhotto também deixou esse gostinho. Me lembro de quando o livro saiu. Me lembro de ter visto entrevistas e críticas sobre o achado, me lembro de ter ficado curiosa para pôr as mãos nele, e me lembro de ter esquecido de me lembrar de comprá-lo para trazer na mala durante meu caminho de volta às terras onde canta o sabiá. E agora me lembrei de novo de que talvez seria uma boa coisa isso de não me esquecer do livro mais uma vez. Acontece.

Por falar em livros esquecidos, me bateu também uma vontade enorme de terminar os romances de Torga e os poemas de Pessoa e de Almeida Garret ainda por acabar. Quase posso me lembrar em que páginas deixei o marcador antes de devolvê-los ao lugar de onde vieram. Se não posso por enquanto me sentar sob o sol (pálido, a essa altura) e sobre o gramado dos jardins do Palácio de Cristal para me debruçar sobre um deles, ao menos posso retornar à leitura preguiçosa que foi interrompida. E talvez bebericando uma enorme xícara de chá preto, de menta ou de camomila - obviamente frio, dada a presente latitude.

E há tantas outras coisas que vêm à mente quando se lembram estas: conversas animadas regadas a risadas, café, SuperBock e uma dose de ginja na frente do centenário Piolho D'ouro (principalmente se depois de uma festinha de apartamento no estilo multilingue); os raios do sol da tarde se refletindo nos azulejos e na foz do rio à frente deles; as casas apertadinhas e a movimentação peculiar da rua de Cedofeita; a confusão de línguas amalgamadas por entre os corredores da Faculdade de Letras; as longas conversas regadas a vinho do Porto com housemates vindas de um país um pouco maior que BH; a casa da escolinha de samba perto da praça do Marquês... tantas coisas para ter saudade. Tanto, que na verdade acho que a saudade nem é de Portugal exatamente. É de ter tido muita sorte de ter estado lá no momento em que estive., de ter conhecido as pessoas que conheci e de ter aproveitado grande parte de cada momento. E o melhor de tudo é que tinha a consciência disso quando as coisas ainda estavam se desenrolando, na maior parte do tempo.

No fundo, acho que é disso que eu tenho falta: de viver cada momento sem tentar antecipá-lo nem apertar o rewind para refazer a cena (por maior que seja a compulsão de fazê-lo). E o melhor é que isso é algo que não depende de alguém estar mirando extasiado o espetáculo de um pôr-do-sol sobre o Douro com um cálice de vinho português em uma das mãos. Embora, é claro, uma dose de um bom tinto - ou uma xícara de chá frio - possa ser de grande ajuda. Daquelas que não é bom dispensar, sabe?

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

"Time is an illusion. Lunchtime doubly so" ;-)

Não é falta do que fazer, é só um teste rotineiro de eficácia de válvulas de escape para noites chuvosas. Resultado: dois filmes consecutivos e quase em loop. Star Wars IV, que vergonhosamente eu nunca tinha assistido todo em sequência, e o Hithhiker's Guide to the Galaxy, quase tão bom quanto o livro. E aquela velha promessa de pegar emprestados, escavados ou comprados o restante dos livros da série para terminar de ler e matar a curiosidade. A gente sempre arranja um tempinho pra esses pequenos prazeres...

domingo, 20 de dezembro de 2009

Indeferido

É a dark wave, só pode ser. Ou então essa chateação é prova de que sou uma pessoa que não sabe perder - o que também não deixa de ser algo pouco saudável, diga-se de passagem.

Às vezes (ok, sempre!) é um bocado complicado, muito difícil até, ter que lidar com o que a gente considera como grandes fracassos. O menos difícil nessas horas é tentar aprender com eles, naquela lógica da experimentação infantil de estímulo-resposta, até que não se ponha mais o dedinho na tomada ou a mão muito perto do fogo. E parece que em janeiro vai haver muito tempo para esse tipo de reflexão, ainda mais agora pelo tempo extra que confirmadamente recebi hoje. É verdade, a vida não é um sketch. É feita pra ser vivida pra valer. De vez em quando eu acho que me esqueço disso - o que torna a lembrança de certos fatos um pouquinho mais dolorosa.

É duro admitir e chegar à conclusão de que você é a única pessoa que se coloca entre você mesmo e o seu sucesso. Acho que "nunca na história desse país", tanto quanto hoje, tive esse sentimento horrível tão perto. E o pior é me sentir completamente impotente diante dele. Pelo menos em uma situação que eu já sei que não tenho mais como remediar. Mas é bom falar, extravasar, mesmo que num espaço em branco - ou em negro - desse vasto mundo virtual.

A minha experiência de estágio em rádio - que nem consta no meu currículo - é decididamente uma dessas coisas de que eu não gosto de falar, que ninguém em sã consciência faz questão de tornar público - aquele tipo de coisa que, ou foi a escolha errada decididamente, ou foi a escolha certa, mas no momento errado. Eu não gosto de falar disso. Dói. Mas o resquício do excesso de cristianismo que um dia já houve em mim não deixa de achar uma boa ideia fazer essa confissão, que embora pública de certa forma, não deixa de ser uma forma de catarse, de liberação. A cor-batina desse blog dá uma falsa impressão de invisibilidade.

Mas, enfim. Isso aconteceu lá pelos idos de 2006, já estava com 1/4 de pé na Europa mas queria muito experimentar o que eu pudesse antes de fazer qualquer coisa. Resolvi então me inscrever para o estágio de férias na rádio da UFMG. A seleção foi tranquila, fiz uma matéria sobre um assunto da vida acadêmica que já não me recordo bem. Mas lembro que ficou redondinha, com poucos segundos de diferença da duração total requerida, com cabeça, corpo, pé. Do jeitinho que a gente aprende na faculdade. Levei o tempo de um almoço para gravar, editar e fechar a coisa, para enviar pouco tempo antes da deadline. Me chamaram, achei super bacana.

Primeira semana, treinamento intensivo, e já comecei a ver que alguma coisa não estava muito bem comigo. Impressão minha, fantasia, claro. Mas nada foi pior do que chegar ao estúdio nas semanas seguintes e não conseguir fazer absolutamente nada, ficar naquela espécie de writer's block total (ou no caso, reporter, editor, e todas as funções que se possa imaginar numa redação). Hiato criativo ou incompetência? (chato ter que se ver obrigado a ficar com a segunda opção, não é?). Ainda não sei. Só sei que nunca consegui entender o motivo daquilo tudo. Acho que quanto pior eu me sentia, menos conseguia fazer, mais retraída ficava, menos conseguia pensar. E nessa fiquei. É chato ser motivo de piadinha (às vezes bem pouco sutis) e ter que concordar porque afinal de contas, há motivo de sobra para isso. Mais chato ainda é ver uma porta se fechar antes de tê-la conseguido abrir. Mas nada é sem motivo, e como já disse alguém que presenciou o triste fato, "a gente não apaga as nossas experiências, mesmo aquelas que nos incomodam. A gente aprende com elas e se fortalece dos erros".

Hoje meu pedido de tentar dar um novo começo - não apagar nem mudar, mas tentar fazer outras lembranças sobre aquilo que foi a experiência mais traumática que tive até agora - foi indeferido. E isso é daquelas coisas que a gente entende, concorda, mas não aceita.

E não adianta ficar chorando pelos cantos. A coisa agora é ir pra frente, não em caráter experimental, mas tendo a consciência de que é preciso dar o máximo para que a coisa saia bem (ou saia, ao mínimo, bem). E enfrentar os medos, against all odds. E não há nada mais desestimulante, nada mais doloroso que esses medos inconfessados. O medo do fracasso, o medo da perda, que só faz crescer quanto mais se quer algo, quanto mais se gosta de algo. Tive que aprender muito sobre isso durante o tempo que passei em Portugal. Nunca é fácil, mas aprende-se imensamente só de se ter a disposição de enxergar as coisas.

Às vezes eu fico me perguntando sobre o valor disso tudo. Pra quê se esforçar tanto, pra quê se cobrar tanto, se depois tudo vira pó, ninguém já lembra mais do seu nome, se todas as experiências que você teve vão, na melhor das hipóteses e em última instância, servir de alguma coisa a ninguém mais que não a você mesmo. Outras, fico pensando em construir algo que vai servir para muito além daquilo que vejo, que sinto, naquele sentimento altruísta meio infantil, meio fantástico, de ajudar a construir um mundo melhor que ainda está por se materializar. Entre os dois extremos, fico eu e as ideias que consegui juntar, me sentindo um pouco refém dessa montanha russa emocional, mas tentando ao máximo passar por tudo isso bem acordada, consciente de todos esses porquês, ainda que - de novo - isso doa mais do que ajude realmente. Mas é bom se manter vivo diante disso tudo, e tentar agir mais com ações do que com palavras. E eu acho que talvez está aí o meu maior erro - viver demais tentando olhar para fora da caverna, encarnar em excesso o papel de um personagem do Teatro do Absurdo - desdenhando a parte saudável do pragmatismo ocidental e norte-americano.

Isso seria resquício de quê?

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Almost there!

E hoje finaliza-se um episódio de aproximadamente um mês de duração. O fim da tortura pela espera - minha, e de centenas de outros finalistas frenéticos e a essa altura, tão sem unhas quanto eu - pelo resultado daquilo que poderia ter sido uma ótima porta de entrada para dar azo à escrita no universo mágico dos textos de revista. Pelo menos nos próximos meses. Não vou poder fazer uma rodada dupla de comemorações como eu queria e esperava tanto, mas isso não quer dizer que eu não tenha motivos para comemorar: a minha suada monografia foi aprovada com louvor e passou com nota máxima pela banca, com indicações para uma continuidade do estudo num mestrado. Sou jornalista agora!! Por outro lado, tive que adiar a minha entrada no Curso Abril de Jornalismo, e reter a outra parte da festa.

Meus muitos parabéns aos talentosos colegas que passaram pela última peneira e vão entrar para a próxima turma do CAJ - muito churrasco, cerveja e bons textos pra vocês, sucesso e inspiração a todos! - e do lado de cá, fica ainda aquela sensação chata de bola na trave, mas a certeza feliz de que o jogo está bem longe dos 45 do segundo tempo. O plano de ataque poderia ter sido melhor, o nervosismo poderia ter sido menor e ajudaria certamente a não errar o passo e dar o branco na hora do lance, mas enfim... um jogo bonito minimiza um pouco o resultado ruim. E a gente sempre sabe quando é hora de avançar para o plano B, C ou D. Excesso de planejamento? Nem sempre... estar aberto às várias possibilidades é a melhor coisa a se fazer até que elas se concretizem. Talvez o único erro seja o excesso de ansiedade, que pode se tornar em certeza e virar um pouco de arrogância em certos casos. Com essas coisas, faz sempre bem a gente aprender para poder planejar melhor a próxima partida. :-)

Mas disso tudo, o episódio não deixa de ser enriquecedor em si. Aliás, foi uma vivência extremamente interessante, tão intensa quanto a espera. A primeira sensação, a incredulidade de ter sido uma das menos de 300 escolhidas entre 3272 candidatos do Brasil quase todo, foi muito mais emocionante que passar no vestibular. Senti como se eu tivesse, de repente, passado em Medicina na USP. A minha habitual languidez foi embora no mesmo milésimo de segundo em que senti cargas enormes de adrenalina dando voltas a 1000km/h pela minha corrente sanguínea. Esfrego os olhos, me levanto da cadeira pra tomar um ar, faço um refresh na página da lista pra ver se era aquilo mesmo ou se eu tinha tido uma mera ilusão diótica. Não, era mesmo aquilo e eu felizmente não estava enganada!

Depois, a espera pela entrevista, a falta de sorte de ter a data marcada fora das condições normais de temperatura e pressão - eu estava num ônibus, voltando pra casa recém saída de uma sessão do ForumDoc, e por isso quase não entendi nadinha do que estava sendo falado comigo, tive que pegar o número pra ligar de volta e coisa e tal - mas no fim, a data e o lugar estavam acertados.

Dia da entrevista, coração aos pulos, taxa de ml de suor por cm2 de pele ligeiramente maior que o normal (sem falar na tentativa de manter a calma e disfarçar tudo isso atrás de um sorriso meio amarelo e meio tranquilo). Entro na sala, dou de cara com o responsável pelos próximos momentos de tensão - e não só isso: pelo Curso também (que, fortunately, também é jornalista). Gostei muito. Nem o aparente talento natural em deixar pessoas à vontade parece ter ajudado muito. Com as mãos por baixo da mesa, eu tremia, suava, e via a terrível nuvem branca do hiato criativo tapando o sol dentro da sala. E foi branca mesmo. Só isso explica o fato de eu ter errado a idade do meu pai (quem cairia no ato falho de dar 57 anos a uma pessoa nascida em 1957?!), ter me esquecido que o filme cuja crítica eu queria comentar era o Abraços Partidos do Almodóvar (não rolava de jogar um "sabe aquele filme do Almodóvar com a Penélope Cruz?!"), ou ter me esquecido da maioria dos nomes das revistas que eu queria mencionar ou ter ficado na dúvida cruel de que a National Geographic era editada pela Abril aqui desse lado do Ocidente, porque isso era um detalhe do qual eu estava quase certa, mas não podia me dar ao luxo de errar, então preferi não mencionar. É. O excesso de adrenalina atrapalhou mais que ajudou, isso é fato. E talvez ter indicado conhecer uma pessoa bacana que conheci em uma das experiências pré-profissionais mais traumáticas que já passei na vida não tenha resultado em uma boa ideia, afinal (ou eu tinha me esquecido de que as pessoas precisam de contextos para formar conceitos sobre as outras?).

Mas mesmo que tudo isso soe a uma experiência desastrosa, não impediu a conversa de fluir bem e simpaticamente. Aliás, foi super bacana, bem interessante e eu gostei bastante. É pena não ser dessa vez o poder continuar o papo, mas acho que talvez numa próxima oportunidade.
Quem sabe?

Essas aventuras fazem bem ao espírito, e tudo depende de como se faz para chegar bem ao fim da viagem, mesmo em face aos pequenos revezes no percurso. É engraçado isso de a tristeza também ter seu lado alegre, dependendo do ângulo em que se olha para ela. É bom olhá-la bem dentro dos olhos e tentar enxergar o que ela está tentando esconder, e não tem muita receita nem fórmula para isso. É preciso encarar bem de perto para poder enxergar alguém nos olhos. E isso é coisa para quem tem coragem de fazê-la.

Por enquanto, vou ter muita coisa a pensar e filosofar - muitos olhares a fazer. É bom aprender com essas coisas. Não foi mesmo Sartre quem disse que o importante é o que fazemos com o que nos acontece, e não o contrário? :-)

domingo, 6 de setembro de 2009

Estado de insônia, mais uma vez. Momento perfeito para mais um post. Para acompanhar: uma dose de Stone Temple Pilots - e de vinho do Porto, porque essas coisas sempre têm que vir em boa companhia. Não sei exatamente em que parte da onda estou, se na crista ou se no vale, ou se subindo para um ou descendo de outro... tudo ainda muito recente, um misto de euforia por ver as coisas finalmente funcionando, a monografia andando a passos largos e felizes, por vislumbrar um futuro que eu planejava mas que promete sair melhor que a encomenda - caso dê tudo certo - somado à nostalgia de uma Belo Horizonte que não existe mais (é, a inflação tirou e tira o sono de muita gente, e a classe medíocre continua no limbo para onde eu tive a felicidade de voltar), o horror do hiato criativo que me vejo obrigada a enfrentar todos os dias (medo do sucesso ou do fracasso?), a indignação de viver num país onde se falar em exploração do pré-sal não soa como boa noticia, somada à (no mínimo, horrivelmente desconfortável) sensação de ver a dignidade de um governo vendida a trinta moedas de prata (aliás, por um par de sapatos mais reforçados para a ministra d. Dilma usar nas eleições ano que vem) no dia em que Sarney saiu da forca, e me cansar de ler canalhice todos os dias no jornal até dar náusea. Bom, não tenho a menor dúvida de que estou mesmo de volta ao meu bom e velho Brasil, esperando, torcendo e contando com a melhor das possibilidades... a de que esse país não vai se acabar por causa da gripe suína - e assim diminuir o volume da novíssima CCS, o que seria uma provável catástrofe para a Saúde Pública.
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Bom, tirando esses pequenos detalhes (o disco continua a girar, soando à Led Zeppellin, ainda nas baquetas dos STP), a vida continua, no meu esforço homérico de fazê-la mais vivível e convivível, against all odds. É aquela velha história de todo intercambista que volta pra casa e fica chocado, etc etc. Em alguns casos, o choque passa rápido ou deve ser simplesmente inexistente. Em outros, o estado de choque demora um bocado mais, ou simplesmente não passa. Quanto a isso, não tenho novidade nenhuma além da de que vou ter que esperar mais um tempo pra ver em qual dessas categorias me enquadro. Como se a vida além-mar fosse sempre o Mar da Tranquilidade em que Neil Armstrong pisou pela primeira vez. Nem é preciso dizer que a realidade tá bem longe disso. Mas enfim. Agora eu sei que certos detalhes da experiência vão entrar em uma fase profunda de remodelação e de idealização, até se tornarem em mitos - resta saber se vão ser as memórias a ser reesculpidas ou se as lembranças é que vão continuar a metamorfose. Ou quem sabe, algumas memórias ainda se tornem em lembranças, no sentido kierkegaardiano da coisa (é. E pra completar, ainda estou me viciando em proto-existencialismo. Já chega perto do fim outro livro do mr. K. e quero ver qual vai ser o próximo...). Isso é outra coisa do conjunto enorme das que eu não faço a menor idéia. Talvez também seja mais saudável esperar para ver.
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Bom. A verdade é que os últimos meses e dias no Velho Continente foram uma espécie de superfast something e mais alguma coisa que eu não consigo nomear ainda. Nem sempre se consegue ser o próprio analista e nem sempre se está dentro de um filme de Woody Allen... ainda mais quando provincianismo belo-horizontino e sofisticação novaiorquina são traços de personalidade diametralmente opostos (isso explica a minha pseudo-bipolaridade?). Enfim. Já estava mesmo enjoada do Porto, no meu limite, e veio super, hiper, mega e blaster a calhar o pequeno tour pelo circuito já feito Alemanha-Reino Unido-Itália, mas com a variante "pacote anti-vergonha para quem diz ter estado na Europa": Berlim, Londres e Veneza on the stride. Estava morta de curiosidade e vontade de ir a Berlim e conhecer os dois lados do Muro (ou melhor, dos restos dele), rever uma amiga e andar por baixo da Brandenburg Tor, do mesmo jeito que estava morta de vontade de passar pelos canais de Veneza, ver a Piazza San Marco e imaginar um ou outro personagem shakespeareano me cruzar o caminho debaixo daquele sol escaldante de Julho. Só Londres eu achava meio overrated, mas resolvi ir para tirar as minhas próprias conclusões. Foi a volta perfeita. Nada melhor que me despedir de Portugal estando bem longe de lá (soa como... "meu saco tava literalmente cheio"?!), ou me despedir do Velho Continente estando bem mais perto dele. É, foi um pouco de cada coisa. Foi ótimo rever gente que eu sei que vai me fazer (e faz) falta, e conhecer mais gente que me faz falta igualmente. E não é preciso mais detalhe que isso. As sensações desse último mês foram o bastante para me fazer o mundo parar, girar mais rápido, mais devagar, chacoalhar - e de vez em quando, tudo de uma vez só. Foi ótimo e horrível ao mesmo tempo. Adorei.
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Bom, a continuação disso tudo foi, depois das despedidas portuenses, a pequena maratona de vôos que se seguiu depois de mais um dia energizante em Madri em ótima companhia, corridas pelo saguão de embarque em Guarulhos logo depois de sair da esteira das malas, uma temporada gringa mal planejada no Rio de Janeiro (algumas coisas não mudam mesmo, pqp), mas muito bacana (quem disse que portuga não é gente fina?), e uma visita germano-luso-dinamarquesa-mineira (não, quase carioca!) aqui na terra do pão de queijo. Foi ótimo, mas os detalhes ficam para um próximo capítulo. :-)

sexta-feira, 19 de junho de 2009

O dia em que o jornalismo morreu

E essa quarta o STF decide que para ser jornalista no Brasil, não é mais necessário ter diploma. Gilmar Mendes comparou o exercício da profissão à de um "chef de cozinha, que não precisa ter diploma para preparar os pratos", e o surpreendente resultado de 8 votos a 1 é irreversível. Por enquanto. Mas eu fico me perguntando... se para exercer a profissão de jornalista não é necessário ter uma competência técnica específica, basta saber escrever bem, ter boa índole e compromisso com a verdade, então pra que serve a universidade? Bastava um curso de escrita jornalística e edição de vídeo e imagem, e pronto, tava feito. Mas o curso serve para fazer as pessoas pensarem a comunicação, refletir no nosso objeto de estudo, que não é uma coisa qualquer. Não concordo com a idéia de que uma falha de informação não tenha consequências graves e diretas. Informações já foram estopins de guerras e revoltas, serviram para fazer manipulações em massa (Hitler com o uso do rádio que o diga!), causam inúmeros processos judiciais, mortes por causa direta e indireta e outras coisas que levaria tempo pra enumerar. É exagero dizer que essa decisão foi um ato de descaso com a informação, mas foi o que soou aos meus ouvidos. Jornalismo não são só técnicas de comunicação, e a informação não é um produto qualquer. É preciso ter formação pra lidar bem com ela, pelo menos é o que eu acho. Fico triste porque isso é um ato de desvalorização da categoria no Brasil (que acho que nunca foi categoria de fato e de verdade por sempre ser tão frágil), que fica ainda mais enfraquecida do que já estava. Não permitir não-diplomados a exercer a profissão não é restringir a liberdade de expressão. Pra isso existem blogs, artigos de opinião, revistas especializadas. Faz sentido dizer que para escrever para um jornal basta ter uma boa formação humanística e saber passar a informação pra frente. É uma afirmação lógica. Mas acho que lidar com a informação é tão importante quanto lidar com o ensino de uma disciplina, por exemplo, e acho que é preciso saber bem como fazer isso, ter formação para fazê-lo. E a informação não está aí pra ser simplesmente passada. Precisa ser pensada. E acho que é pra isso que serve o curso de Jornalismo: para proporcionar a reflexão da informação, e não só servir como um curso de técnicas de comunicação. Se fosse só isso, estaríamos todos lixados! Também não vou dizer que só quem passou pela faculdade de Jornalismo tem a capacidade de refletir sobre a informação ou que tenha ética. Longe disso, seria muito reducionista (se nem quem passa pelos bancos da faculdade por quatro anos às vezes tem essa capacidade!), mas não acho que qualquer um possa ser jornalista. Pra ter liberdade de expressão, um sujeito não precisa se considerar jornalista, precisa?

Em pensar que para exercer a profissão de advogado nem é necessário só o diploma. É preciso passar na prova da OAB, o que, acho eu, é uma forma de dizer aos navegantes que "é preciso saber o que se está a fazer e porquê". E depois, enchem escritórios de advocacia, cartórios, ou com um pouquinho mais de sorte viram deputados, senadores, ou vão trabalhar no STF pra votar decisões como essa.


Agora, é aquilo: os salários vão para as cucuias, a mão-de-obra, que já era barata, vai ficar a preço de atacado chinês, e a concorrência que não era pouca agora vai piorar um pouquinho. Mas acho que isso é uma prova de que talvez a classe jornalística não esteja transparecendo bem o seu papel crucial na sociedade (do tipo, o jornalismo é uma profissão tão importante que é necessário ter pessoas formadas nisso pra exercer?!), ou... sei lá, não esteja mostrando o que vale. Talvez se houvesse uma maior consciência de categoria, de classe, de unidade, isso seria diferente. Mas como toda moeda tem dois lados, vamos ter que mostrar o que valemos e mostrar pra que vale o nosso diploma. Quem quiser fazer jornalismo agora, eu acredito, vai ter que fazer o que faz porque gosta e realmente é aquilo que quer, e fazer o que faz por "amor à camisa". Ver o copo meio cheio em vez de meio vazio é sempre a melhor opção. :-/

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Clichês


Já sinto saudades daqui do Porto, mesmo antes de ir embora. Isso é um enorme clichê, eu sei. Lugar comum. Ou incomum. Ou um lugar pequeno e incomum, mas do tamanho do mundo. Como me disse uma portuense radicada na Alemanha outro dia... "o Porto é a saudade travestida de cidade". Acho que concordo. E isso porque já morei aqui tempo o bastante pra me saturar. Talvez tempo o suficiente pra descobrir que o tempo é curto e que passa depressa, ou tempo o suficiente pra me fazer perceber como os dias são bonitos do lado de cá, por entre casas velhas, morros íngremes, a poesia de uma tertúlia num domingo à tarde ou o cair do dia às margens do Douro. Já tenho saudades daqui, mesmo estando curiosa pra saber o que vem depois, ou onde vem depois... Talvez seja uma ansiedade injustificada, talvez não haja nada demais pra além do horizonte e pra além do oceano, talvez não haja ninguém a segurar o pote dourado aos pés do arco-íris pra mim. Mas é bom imaginar, é bom sonhar. E fazer planos. E realizar planos, que é mais importante que simplesmente fazê-los... É estranho se estar nesse interstício - quando ainda há tanto a fazer, tanta coisa pra experimentar, tanto a descobrir, mas há aquela sensação de que nada seria melhor do que sentir o cheiro, o gosto e as cores daquele céu azul do meu Horizonte Belo ou simplesmente passar uma tarde andando pelo Parque Municipal a pensar na vida e mais nada... demorou, mas tenho que admitir: tenho saudades de casa. E isso não é pecado nenhum. Mas é como eu costumo dizer: é sempre bom dar o tempo o suficiente pra se sentir saudade... pra querer ver o rosto das pessoas que te querem bem, pra sentir o vento da manhã quente ensolarada que te desperta a maioria dos dias do ano, pra comer aquele almoço que só a vó sabe fazer. E achar aquilo tudo uma delícia. E pensar duas vezes quando o reclamômetro disparar.

Mas isso tudo não é mais que uma montanha de clichês.

Tem gente que realmente leva um pouco mais de tempo pra perceber e realizar as coisas, e não tenho dúvidas de que nasci pra me enquadrar nessa categoria. Mas acho que por um lado, isso tem até uma beleza: mastigar e digerir as coisas devagar faz parte dos mandamentos da boa saúde... será que é por isso que me sinto tão pouco saudável nos últimos dias? :-)

Outro clichê.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Quando dormir quase deixa de ser um hábito, e a sensação de embriaguez é quase a mesma de quando se está meio sóbrio, meio stoned, meio after-post-qualquer coisa, meio over, over tudo isso... nada melhor que uma boa companhia para passar os minutos, que por eles só já passam sem que a gente se aperceba muito disso. Saudades de casa? Ansiedade por mais um dia em que não se sabe como vai terminar? Saudade do que se foi e do que será? Ou será simplesmente a tristeza que não tem fim... como já dizia Jobim? Essa tristeza que é como o mar, que vem em ondas, costuma ser revolta de tempos em tempos, deixa espaço para a sua benevolente calmaria na estação baixa... e é tão vasta que se perde de vista? 
É bonito isso de ser triste?

domingo, 24 de maio de 2009

De trás para frente, de frente para trás

24 de Maio de 2009, 1:49. Vão-se quase 3 meses de intermitências, tempo o suficiente pra digerir muita coisa do meu assaz conturbado "monthly me", porque daily nunca o foi, desde o início. O tempo passa sempre de trás para frente, com os segundos passando pelo fio do tempo sem cessar, mas hoje me deu vontade de contar algumas coisas de frente para trás, a começar das poucas horas que se passaram. Há pouco menos de duas horas, estive - a tiracolo da Manaíra, uma amiga porreta de Maceió - a ensaiar uma entrevista muito bacana depois de um show bastante intimista da Stacey Kent. A voz aveludada da moça saía ainda mais fluída ajudada pela pronúncia clássica e perfeita daquele Inglês que todo anglófono não-britânico adorava ter. Sem contar, claro, com o facto de ter como plano de fundo aquele ritmo todo jazzy que enchia os ouvidos da feliz audiência, presente naquela sala que não era nem a Casa da Música, nem Passos Manuel, nem teatro algum. Não faltava nada no auditório da FEUP: a acústica estava ótima, a iluminação bem pensada, e o show... foi lindo. Adorei escutar Águas de Março e Samba Saravá em francês, o Corcovado à Bebel Gilberto e Stacey Kent quase que à Nara Leão. Sua personalidade simpática e ar apaixonado (isso também ajuda, e muito... os olhares cruzados com os do marido, saxofonista e compositor Jim Tomlinson em palco davam pistas de onde vinha a inspiração) deram o tom. E o ser simpática e interessada pelas pessoas e pelos lugares também fizeram a entrevista fugir do trivial. Muito bacana. Maybe I should play the journalist more often!

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Depois, equilibrar trabalhos tem sido de novo, um desafio. Gerir mal o tempo e os recursos disponíveis é praticamente um suicídio na sociedade pós-neo-moderna desse prozaquiano século XXI. A isso nem faço comentários. Mas é aquilo que tava lendo outro dia e que já não me lembro mais quem disse: "there's no such thing as hard work, just work that's not done on time"... ou a lei de Alzheimer, aquela que diz que "uma pessoa vai cumprir uma tarefa usando necessariamente todo o tempo que tem disponível para executá-la" ou coisa assim. Ou seja, se tiver um mês pra fazer um trabalho, vou fazer aquilo em 29 dias e 23:59 horas. Se tiver uma semana, uso apenas todos os 7 dias que tenho (ou talvez os 6 e alguma coisa que restam). Bah. Papo cansativo. Só sei que amanhã vou enfiar a cara no meu projeto de PIUE e ver no que dá. E depois, as coisas vão acontecendo... é bom ver que elas se desenvolvem e se desenrolam de alguma forma. Entrar pra colaboração na UPMedia tá sendo muito bom pra me sentir mais viva e mais "multitask", com a Aiesec a mesma coisa. E depois ainda há as otras cositas más.

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Putz, tô com um sono...
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E o que eu não fiz ainda foi algo que acorda comigo e dorme em cima da minha cabeceira todos os dias: colocar em palavras (on-line, ao menos... porque palavras existem em todos os meios possíveis e os que a gente inventa) a minha grande viagem, a viagem dentro da viagem dentro da viagem nessa epopeia europeana que está prestes a chegar ao fim do primeiro capítulo.

Sem dúvida que dias curtos, intensos e muito interessantes fizeram muito bem pra mim e pra minha saúde mental, mesmo nas coisas que não foram tão boas assim, mesmo nas mais complicadas e um bocado twisted. E o bom disso tudo é que tenho a certeza de que fiz um bocado mais que o simples turistar para postar fotos no quadro imantado das memórias no fundo da gaveta, Facebook ou coisa assim (embora isso não impeça de disponibilizar as imagens pra quem não esteve lá)... Mas antes de tudo, acho que é preciso se estar preparado para visitar um lugar, porque aquele impulso, aquela vontade e aquela curiosidade que te impelem de ir pra algum canto não é nada mais do que o lugar a te escolher, antes de você escolhê-lo. Isso não precisa ser um impulso pra ser respondido de imediato nem ruminado em excesso, pode ser uma coisa acalentada durante muito tempo, ou tempo nenhum, mas o que conta é se você estava preparado para ir, se você realmente esteve lá. Eu espero ter estado em todos os lugares em que estive. O contraste de pessoas e paisagens em tão pouco tempo foi quase que um tratamento de choque. Do calor (humano, claro e inclusive) das ruelas e castelos imponentes italianos, vespas estacionadas aos montes, pessoas tagarelando e gesticulando em alto tom e a bela língua de Dante a ser falada em cantados diferentes foi diametralmente o oposto dos céus cinzas do lar do Manchester United. Eu que pensava que não falava nada de italiano e que tinha um Inglês fluente (óbvio que Italiano é Italiano e que a língua falada em Manchester ou em Glasgow tá bem longe do Inglês)... E fazer essas viagens tendo como companhia as lentes de uma câmera, uma mala e alguns papéis simplesmente não tem preço. As pessoas que me foram cruzando o caminho também fizeram com que ele se tornasse ainda mais especial. Mas porque fizeram parte da viagem que encontrei lá, esperando que eu a vivesse. Tudo o que eu queria era simplesmente me diluir naquele(s) lugar(es), me mesclar com a paisagem, sentir as pessoas, entender o que me passava pela retina. Porque estar de olhos abertos e tê-los fechados ao mesmo tempo deve ser algo doloroso demais pra ser percebido, admitido. E daí fecham-se os olhos logo de uma vez e vai-se apenas tirar fotos pra ver em casa mais tarde.
Time will tell...

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

E o Porto continua a surpreender :-)

Eu tinha mesmo que registrar isso, absolutamente: pela primeira vez presenciei algo que nunca pensei em ver na minha estadia aqui no Porto, e ainda mais nesse pequeno ponto da rua de Augusto Luso... as pessoas nas lojas também pareciam meio anestesiadas, com uma expressão de surpresa boa no olhar, quando viam pelas portas e pelas janelas a ínfima neve que caia daquele céu branco, testemunhando aquele frio espetáculo. Afinal, só aqui no Porto, há quem diga que não neva há mais de 20 anos...
O frio entrava quase a cortar as narinas, mas nada como saudar esse clima com o qual sou tão pouco familiar. :-)
E o Porto continua lindo, com ou sem neblina, e me sinto mais em casa nesse lugar a cada dia que passa. Acho que só mesmo depois de algum tempo no Brasil é que vou perceber que fui embora...

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Parabéns, Oliveira!

O centenário de Manoel de Oliveira, um dos maiores ícones de Portugal e ainda em atividade. Isso é que longevidade!

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Today I woke up with this song playing at the back of my head. I've heard it's about losing your faith... But I think it can be also about gaining it or else somehow. Can't it?
But I think this other song makes more sense for my day after all...

domingo, 16 de novembro de 2008

Ême, êne, é, ême, ó

É estranho como as coisas acontecem e vão acontecendo quando você tenta se dar conta da progressão e da lógica delas. Uma foto, uma pergunta, uma tarde, de vez em quando são santos remédios para cabeças cheias de assuntos mais importantes para se tratar que a própria existência parca e consumida às pressas, como um prato indigesto de que somos obrigados a nos satisfazer famigeradamente.
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As fotografias, fotografias… suportes da memória a curto prazo que às vezes não tem cheiros nem cores, talvez nem as cores com que entraram pelas lentes de uma câmera-lixo, e tudo isso fica ainda mais líquido levando-se em consideração que também o suporte físico deixa de ter lugar… acumulam-se imagens em telas de LCD sem que ao menos as tenhamos na lembrança – o que não necessariamente é o mesmo que não as tê-las na memória. Será que as fotos dos outros são as minhas memórias? Será que me aproprio ou posso me apropriar delas porque à partida são mesmo dos outros, ou será que são mais minhas exatamente por isso, por serem dos outros?… talvez por eu tê-las simplesmente vivido ao invés de tê-las tentado congelar e reter num instante fugidio da memória, que me fugiu exatamente por eu tê-lo tentado reter?
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Como congelar o tempo? Eu, se pudesse, congelá-lo-ia eternamente, só para não ter que senti-lo passar por mim olhando-me com o desdém de quem tudo pode fazer… sinto-o líquido, fluindo de dentro para fora e de fora para dentro, numa diferença enorme de fluxo (o fluxo que vem de fora sempre aumenta em progressão métrica geométrica, e o de dentro é sempre quase centimetrado)… como reter o tempo? Como reter os instantes? Como congelar essa água que flui quando se vê uma folha dourada se desprendendo de uma árvore, uma peça de música que toca no fundo, um poema que se quer ter sempre perto dos olhos e do coração, a emoção de se estar num lugar em que se pode entender, absorver e se raciocinar com a certeza de que se consegue captar absolutamente tudo (ou quase) por causa de uma língua tão linda quanto sensível que interliga almas e culturas…
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Não sei, talvez a melhor forma de se congelar o presente é vivendo-o, e não tentando elaborá-lo antes de acontecer. Acho que vivemos perdidos lembrando excessivamente do passado e tentando planejar o futuro igualmente em excesso, tentando ensaiar o maior número de cenários possíveis como se tivéssemos toda a teoria da Física Quântica compilada entre as orelhas, talvez engatilhada para um uso mais útil que apenas ensaiar. Confesso, eu não a tenho. E mesmo assim, tento ensaiar como se tivesse toda ela bem guardada e embrulhada para presente, prestes a se abrir a qualquer conexão sináptica mais forte ou com alguma elevação de temperatura cerebral decorrente de falta de sono prolongado ou stress acumulado…
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E assim vai-se, caminha-se, “vai-se andando”, como detesto ouvir dizer. Anacronicamente, no descontentamento de não se poder reter o presente por nunca estarmos atentos a ele o suficiente nos pequenos detalhes. Acho que quando se faz memórias - ou melhor dizendo, lembranças - é necessário que se tenha os cinco (ou seis, sete, ou oito…) sentidos bem atentos, completamente absortos na experiência, o que às vezes não é tão fácil assim quando se tem a terrível mania da antecipação e da assimilação relâmpago e fácil digestão das imagens, cheiros, sensações e lugares. Assim uma pessoa pode acabar tendo uma indigestão bem severa e talvez conseguir o contrário do que queria quando saiu à procura de experiências para colecionar, porque, como bem lembrou Kierkegaard… lembranças não são o mesmo que memórias… lembranças sobrevivem ou são ressuscitadas num ambiente completamente adverso àquele em que ela se deu (exatamente por causa desse contraste), são as sensações guardadas, as impressões, os sentimentos, as conexões reais e naturais que aconteceram na mente e na alma. Deixam uma marca indelével. As memórias precisam ser sempre ser alimentadas por algo que tencione e suscite trazer a lembrança à tona (mas que já não é lembrança se precisa de estímulo, então…). Mas é imediatizada e não demora muito a perder as cores e os sabores. É o tipo de coisa que ajuda muito em termos práticos, mas acho que não se mede a extensão de uma pessoa pela extensão da sua memória, mas sim pela extensão das suas lembranças (o que também é controverso, pode ser que a memória também seja uma boa medida…).
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Mas quero poder guardar mais lembranças que memórias.


Guardar (Antônio Cícero)

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela, isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso, melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que de um pássaro sem vôos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica, por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Oh! Frankfurt...




Passado o “deslumbramento” inicial (que acho que é uma coisa que ninguém devia perder nunca, nem pela própria cidade), nada melhor que lembrar e relembrar…

Depois de um vôo bem chato – sim, pra quem já passou mais de 10 horas num “vuelo non-stop”, menos de 3 horas agora são incômodas e chatas… - finalmente cheguei ao “galpão” de Hahn, perto de Frankfurt, Köln e mais alguns lugares, e bem, ainda tinha mais uma hora e meia de ônibus pra chegar à cidade que eu queria. Depois de falar com a minha adorável host, a Helena, finalmente saí do galpão e estava a caminho da cidade dos arranha-céus. O caminho que eu via passar pela janela tinha mesmo uma paisagem convidativa, cheia daquelas florestas invernais com folhas salpicadas de dourado e ocre, algumas ainda pendendo das árvores e muitas delas pelo chão, sob o signo daquele céu azul de onde o sol brilhava timidamente, iluminando um trajeto que cheirava a bucolismo e que desembocava num contraste quase violento com aquele coração financeiro da Europa. Com a companhia de Nicola Conte, José González, e claro, Led Zeppelin no player, cheguei finalmente à Hauptbanhof, a estação principal dos trens em Frankfurt.

Aquele lugar coberto de um enorme céu metálico à la século XIX tinha uma data de trens da DeutscheBahn a ir e vir, uns talvez com atraso, outros talvez tão pontuais como se imagina serem as pessoas daquela parte da Germânia. Aquilo era um misto de shopping center, “quiosqueria”, estação e centro de informações, com a comodidade de terem telefones espalhados por todas as esquinas pequenas. Sendo assim, poucos minutos depois de ter usado um daqueles telefones, lá estava a Helena, num elegante casaco escuro e com um sorriso que me fez sentir confortavelmente bem-vinda à “Mainhattan”, como dizem.

A primeira coisa que fizemos foi parar em um café (só não me pergunte o nome!) quentinho, com almofadas e revistas em uma janela que dava para a rua - e para a GoethesHaus - e minha escolha não podia ser outra além da minha primeiríssima dose de Apfelwein – “pure, please… kein Saft mit der Wein, bitte!” – e ali ficamos a conversar por um tempinho, aproveitando o calorzinho do lugar e a minha inevitável expressão de novidade no rosto. Depois, no caminho até a casa, mais papo, a vista dos primeiros arranha-céus, o cheiro do parque que dá as frentes (ou as costas?) para o Banco Central Europeu e a Alte Oper, linda, com uma fonte na frente e uns cafés do lado, tipo “parisién style”. Nas ruazinhas pelos lados da Grüneburgweg, casas ao estilo neoclássico e um mercado de flores e vegetais que é uma graça.

Chegando à casa, tenho a surpresa de ser recepcionada por um adorável canino, mais conhecido como Pumba, que sem barulho nenhum recebe afagos de visitas e se sente feliz por dormir na cama dos seus pais, Georg e Helena. Adoráveis, todos eles… e com muito estilo. :-) Estilo, aliás, é mesmo uma palavra que define esses dois estudantes de Filosofia que conheci no país de Nietzsche e Marx. Helena estava sempre a sonhar com uma vida em meio ao século XIX, e Georg, um sujeito interessante e misterioso com quem gostaria de ter conversado mais, era mesmo o par perfeito da simpática menina de cabelos louros.

Feitas as devidas apresentações, era hora de perambular pela cidade, como boa turista que sou. :-) Mapa na bolsa e algum Alemão cru na língua, encontro arranha-céus, esculturas, cafés, ruas de calçadão, a Bolsa de Frankfurt (me doeu um pouco ver isso justo nessa época, mas acho que nem é pra tanto)… foi bom andar pela Schillerstrasse e outras ao redor sob aquele sol pálido que iluminava as praças, shopping centers, bancos e as muitas livrarias com preços convidativos, em meio àquela salada de alemães, turcos, indianos e gente da mesma categoria que eu, turistando talvez com essa mesma estranha sensação de não se querer ser turista…

Comi então a minha primeira bratwurst, pedida meio em Alemão, meio em Inglês e com um “danke schön!” no fim, ao que escuto um “you are welcome!” de volta, e depois continuei deambulando por aquela cidade que me pareceu ter um custo de vida abaixo do que eu esperava (que ótimo!), e fui finalmente parar ao Römer, essa praça de fundação romana que vem nos cartões postais e na imaginação dos turistas que visitam a cidade. É mesmo linda, principalmente à noite, com uma afluência enorme de pessoas e o rio Main logo à frente. E por falar em rio Main, atravessá-lo à noite foi mais que tirar fotos das ondas na água (hum… à noite? Essa foi mesmo má! hehe) e dos prédios que emergiam ao fundo… houve um bando de malucos que tava a seguir o curso do rio em uns barquinhos - na verdade, caiaques - munidos de chapéus de “viking-horns”, luzes intermitentes (seriam árvores de Natal ambulantes?), música e muita gritaria… pensei que fosse algum tipo de feriado nacional ou alguma coisa que se fazia de praxe, mas depois vim a saber que não era uma manifestação regular ou temporal. Achei bacana, e pensei que podia ser por algo que aconteceria no dia seguinte (de fato, houve a Maratona de Frankfurt no domingo) ou estavam tão felizes por ter mais uma brasileira simpática a olhar a cidade que não podiam conter a alegria e tiveram que se manifestar de alguma forma… modéstia pouca é bobagem lá nos trópicos!

Depois de ter o caminho de volta feito, e feliz por não ter sido difícil achá-lo sem usar o mapa, uma saidinha com o Pumba pelo parque, mais papo e um vinhozinho que ninguém é de ferro… estava bem feliz por pensar que podia me virar sem ter que depender inteiramente do meu Inglês, já que algumas das pessoas que encontrei ao longo do caminho não falavam outra coisa senão Deutsch. :-)

No outro dia de manhã, um domingo cinzento e frio, fui logo pra varanda ler um jornal e pensando que aquele gelo todo me faria muito bem pra acordar os neurónios. Bom, e no fim, fez mesmo… mais conversa no café da manhã com os meus adoráveis hosts (que a essas alturas devem até saber quando é que o Lula nasceu), era hora de traçar o próximo plano. Minha missão era então ir ao Städel Museum do outro lado do Main. No meio do caminho me chama a atenção uma batucada que se agitava persistentemente à distância, ainda meio que sob o efeito Doppler, que vai diminuindo à medida que me aproximo. Não era outra coisa senão a Maratona de Frankfurt, com direito à Coca-Cola pros maratonistas, transmissão na TV, muita música e uma grande festa na frente da Alte Oper. As estrelas principais? Um grupo de batuque de – adivinha de onde! – (we’re EVERYWHERE…) e os gringos sorrindo e alguns gingando naquele frio que quase cortava os meus ossos tropicais. :-)

Depois de mais um pouco deambular, uma parada no Römer e um shake da Haagen-Dazs antes, pra continuar a via sacra. Vi um museu atrás da pracinha, uma loja de brinquedos de madeira todos feitos à mão (hmmm, gracinha de Quebra-Nozes!), quase à Grimm, um septeto de cantores-músicos uniformizados à anos 40 sob a pele de militares russos (me pareceu) e cantando uma músicas tão mellow que era de comover qualquer passante. Mais à frente, um sorridente malabarista chinês que não entendia nada do que falassem com ele, mas que tinha uma concentração digna de um giggler do circo de Pequim ou de Moscou… e depois disso, algumas ruínas (cujos intertítulos não consegui ler muito bem, que frustrante…) e uma loja de souvenirs escondidos atrás da praça, e finalmente o outro lado do Main pra completar o meu destino inicial.

Mas acabo mudando de idéia ao me lembrar que o Deutsches Filmmuseum também ficava por ali, e, Bosch e Vermeer que me desculpem, mas tive que dar uma voltinha noutro lugar. :-) A visita toda daria um post talvez tão grande quanto esse, mas poder me virar mais uma vez sem o meu Inglês, poder ver os antepassados da camara obscura, filmes do Meliès e dos Lumiére rodando, tocar na armadura dourada da Maria-Robot de Fritz Lang (eu TIVE que passar o cantinho da unha no dedo da estátua pra ver se era de verdade… nem eu conseguia acreditar naquilo…!) e ver os scores originais da trilha sonora do Metropolis, poxa… foi simplesmente mágico e fez toda uma tarde se parecer com duas horas passadas depressa. Depois de algumas horas ali dentro, percebi o meu sacrilégio de não ter papel e caneta na mão (o que não costuma acontecer!), providenciei-os às pressas, mas, sorte minha… já tinha conseguido alguns registros em imagem daquele pequeno santuário. Fui a última pessoa a deixar o museu (ok, isso nem é a primeira vez que me acontece) e ainda antes disso fiquei de papo com uma senhora muito simpática que trabalha no museu, interessada pelo meu interesse e me desejou toda a felicidade do mundo depois. Um amor de pessoa.

De volta à casa, aqueles inevitáveis comentários de quem acabou de descobrir a pólvora, e pra fechar a noite, claro, um filme. Nada como ver Waking Life ao lado de gente que faz da Filosofia o objeto de estudo da vida toda... :-) E assim termina a noite e o fim de semana, porque no dia seguinte eu tinha que acordar bem cedo para deixar Chicago Am Main e voltar pro meu Porto pacato. Mas isso também já rende outra história…

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

O conto de uma vida

Hoje, depois de um café da manhã um pouco nada saudável, mas necessário (uma xícara pequena de café de vez em quando faz milagres que a natureza não explica), estava eu, a ler uns escritos, escutando umas velharias, e surpreendentemente, me lembrando de uma pessoa – que hoje não sei se posso chamar de amiga, porque acho que nunca a entendi de verdade… ou talvez nem o quisesse - que já quase havia se desvanecido da memória. Depois de passadas algumas décadas, uma pessoa acaba se distanciando da sua juventude e começa a ver o inevitável vindo pela frente. Mas antes disso, tenho uma história pra contar.

Ana Carolina “Mayakovskaya” Andrade e eu andávamos na faculdade pelos nossos idos vinte e poucos anos, e foi mesmo lá que a conheci. Era uma menina linda e adorável, mas de gosto pouco ortodoxo (ou será que posso chamar aquilo de des-gosto?!) pela moda e pelas coisas que vestia (na verdade tenho a impressão que ela só se vestia porque era estritamente necessário… mas nunca a vi andar de pijamas pela sala de aula). Usava um corte de cabelo tão pouco ortodoxo quanto as suas roupas (aquele liso pontiagudo, curto e basiquíssimo fazia um conjunto perfeito com a sua quase ideia de não-roupa) e bem, a única coisa que a fazia ser descoberta uma pessoa adorável, à partida, era a conversa dela. Era-se mesmo meio difícil achar alguém que não tivesse nada a dizer nos corredores de Letras e Belas Artes daquela época (isso era requisito básico para os loucos que queriam se arriscar pelo livre pensamento e alguns pela tinta da pena) e menos difícil, na verdade, comum, era ver alguém que simpatizasse com as ideias de Marx (as verdadeiras, não com o que fizeram com elas na ex-URSS) porque achávamos que isso podia mudar o mundo… queríamos mudá-lo de fato, e sim, naquele Brasil de meados da década de 70, gostávamos de ir a cafés - leia-se, fumar uns charros escondidos - e discutir sobre tudo, ou quase (lembro-me que os assuntos variavam da morte do Herzog ou a independência de Angola à Nietzsche ou Kierkegaard – nada mais apropriado pra se discutir em um boteco…), assistir filmes do Godard (que sinceramente os preparados de erva ajudavam a entender bem melhor) e era assim, “nada de muito extraordinário” naquela pacata cidade então quase provinciana que era a nossa BH. E talvez porque gostássemos de seu ar juvenil e quase maroto, BH ia ser sempre uma jovem provinciana na nossa cabeça.

Mas voltemos à Carol. Ela fazia parte do meu grupo de amigos e acho que tinha um estranho desejo de morte violenta, ainda mais forte que o meu por reconhecimento do meu heroísmo fake: havia que se defender uma ideia, sempre, mas sair à noite para grafitar paredes em espaço público em crítica à ditadura e em favor dos exilados era um pouco demais, eu achava. Preferia o sossego dos meus pseudónimos a ter que correr o risco de me deparar com um polícia na rua e nunca mais voltar. Mas a Carol era meio assim. Na maior parte do tempo tinha um sorriso no rosto, gostava de conversas animadas, mas nunca dava as cartas. Tenho a impressão de que no fundo, no fundo, ela era uma tímida incorrigível, que tentava se expor ao máximo para que ninguém visse o que estava logo à vista: que era uma pessoa extremamente infeliz. Foi o que vim a perceber depois. Nas poucas conversas que tivemos sobre a sua infância e o que fizera até ali, Carol sempre me pareceu uma fortaleza emocional quase intransponível: me dizia que não gostava de depender de ninguém em aspecto nenhum, que achava que Nietzsche tinha razão e que a vida era mesmo assim, cada um por si e Deus por todos (embora eu ache que ela não acreditava realmente no que dizia, e talvez nutrisse a mesma não-crença pelo divino que eu tinha). E eu brincava, dizendo que daquele jeito ela ia acabar morrendo virgem, porque ninguém queria comer uma mal-comida de gosto amargo. E ela se ria disso, dizia que tinha uma quedinha pelo Pedro mas me fazia jurar que ele nunca o saberia, fingindo uma intangibilidade emocional que não fazia mais que enterrar ainda mais fundo os seus medos e seus desejos. Apesar disso, dizia que se identificava muito com seu pai, porque não o conhecera. E ela dizia que essa identificação tardia com ele é porque ela nunca chegou a se conhecer completamente (na verdade ela dizia “nem minimamente!”). E sempre que chegávamos nesse ponto da conversa, Carol tentava escapar pelos dedos, tão escorregadia quanto um peixe, e dizia “olha, mas eu tava vendo outro dia uma coisa bacana que a gente podia escrever e tal”…

E eu pensava que éramos mesmo amigas. Mas a Carol me assustava. Era uma pessoa com mais altos e baixos do que o comum (podia variar entre o silêncio total e absoluto numa animada roda de amigos ou podia se fartar de falar entre uma cerveja e outra numa ocasião parecida), e acreditava piamente que um dia tudo ia acabar e que não havia sentido em nada que estávamos a fazer (outra coisa que me assustava era seu niilismo), e achava que devia estudar filosofia depois porque achava estúpido e genial ao mesmo tempo, mesmo que no fim das contas isso não fosse servir de nada, que não entendia como Hegel e Platão poderiam estar inscritos numa mesma categoria e ser estudados num mesmo curso, que adorava o mito da caverna (talvez isso explicava a insistente fixação dela pelo não-ser, ou pelo menos do não-corpóreo ou qualquer coisa assim… me contou um dia que “se um dia pudesse tornar-se éter se sentiria completa”), e que achava que Epicuro é que tinha razão no fim das contas. A verdade é que acho que não me surpreenderia se ela também apoiasse Hitler se ela tivesse nascido alemã alguns anos antes. A Carol dizia que ele também tinha a sua razão. Ela vivia a me dizer que às vezes mais valia uma proposição não correta e bem elaborada do que uma verdade objetiva e incontestável, fácil por ser um dado adquirido. E acreditava mesmo nisso.

Me lembro que numa das últimas vezes que a vi, estávamos conversando uma bobagem qualquer num bar numa noite quente com uns outros amigos. Aquela então estranha figura não conseguia mais esconder seu ar soturno por trás do seu falso e ainda radiante sorriso. E ainda assim, falava, falava como se o mundo fosse acabar. Continuava a contestar com os seus grafites, a gostar de Cinema Novo, fumar os charros de sempre e a ler Sartre. Ela dizia que queria escrever e desenhar pro Pasquim, que queria se mudar dali, que queria ser estrela de rock e morrer nos porões da ditadura e ser cultuada como heroína nacional. A gente se ria muito disso, e sempre tive a certeza de que a Carol era meio fora de órbita mas tinha um grande futuro.

É verdade. E tinha mesmo. Pena que não chegou a ter. Mas hoje acho que seu maior erro era ler Mayakovsky compulsivamente (coisa que só vim saber depois)… Notei a falta da Carol numa semana que ela de repente parou de ir à faculdade e parecia ter se cansado das nossas saídas e das nossas conversas com o pessoal. Tentávamos ligar pra casa dela e saber o que havia acontecido, se tinha viajado, e não tínhamos resposta. Eu e uns amigos fomos até o apê onde ela morava, e parecia não ter ninguém, e pessoa alguma sabia o que havia acontecido. Todo mundo pensou logo que ela havia ido em uma viagem pra descanso da pele, mas eu, com as minhas lentes do Apocalipse, pensei logo que ela tinha tido realizado seu sonho louco de complexo de mártir e finalmente a polícia a tinha visto fazendo um dos seus grafites. Teríamos decretado feriado nacional no dia da morte de Santa Carol, se ao menos tivéssemos a certeza de que isso tinha acontecido. E acho que ela ficaria mesmo muito feliz. Mas o que aconteceu de fato foi os vizinhos notarem um cheiro muito forte vindo do apartamento da Carol, onde ela insistia em morar sozinha (o que se justificava segundo o que ela tinha me dito uma vez: "detesto pessoas que usam a mesma máscara todos os dias...". Paranóia?). E sim, minhas suspeitas não estavam erradas de todo, infelizmente. Depois da notícia que ninguém queria ouvir, o pânico, a incompreensão, a revolta, viu-se um bilhete por baixo da arma do crime, em que se podia ler nas últimas linhas: “me perdoem, sei que essa não é a melhor maneira (não recomendo isso a ninguém), mas parece que pra mim já não tem jeito. Pedro – ame-me”. Tive raiva, me senti muito mal por não ter feito nada antes e depois de tudo cheguei à conclusão de que aquela foi uma morte covarde mas talvez fosse mesmo a única saída. Alguns escritos foram encontrados escondidos entre os seus pertences em várias partes da casa, bem à sombra do alcance de qualquer pessoa, quase camuflados. Pude ler alguns, e aquele mosaico enorme começou a compor a face daquela personalidade frágil e brilhante. Quanto aos maiores amores da vida dela – Mayakovsky e Pedro, segundo os seus escritos – bom, um deve ter ficado numa imensa tristeza póstuma a ver alguém usar a sua anti-recomendação como modelo de morte mais de quarenta anos depois da sua. Quanto ao outro, parece ter absorvido a interioridade e o humor soturno da sua amante travestido com os mesmos sorrisos, como se fosse uma maldição saída da pena de E. Allan Poe.

E eu depois disso comecei a grafitar paredes e fui trabalhar no Pasquim.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Pra não deixar passar em branco










Ou em preto (minha cor de fundo favorita!). Porque se uma imagem vale mais que mil palavras, várias delas então me economizam um monte...

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Mais uma

E hoje começa o U. Frame...! Que rufem as câmeras! ;-)